quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Finlândia 2009/2010

No final de 2009 em conversa com Kimmo Frosti, o organizador do Campeonato Internacional de Escultura em neve e gelo, ao largo do lago Saimaa na Finlândia, e após uma desistência por parte de um colega sou convidado a participar. Neste concurso participarão um total de 6 escultores.

Parti rumo à minha primeira experiência de escultura em neve e gelo, e de um inverno a sério.
Após uma longa viagem, chego ao aeroporto de destino Lappeenranta. 
O evento situa-se  a poucos quilómetros de Lappeenranta nas margens do gelado Lago Saimaa, o quarto maior da Europa, na área de um antigo hospital psiquiátrico - que está a ser remodelado numa estância turística - repartido em vários edifícios que se perdem numa paisagem de plátanos em tons de branco, cinzento, castanho e um suave azul que contrasta com o extenso manto branco que cobre o lago.
As temperaturas rondam uns constantes -20º e o ar é tão seco que o primeiro contacto limpa os pulmões. Não vim preparado para estas temperaturas. E antes de mais adquiro equipamento térmico para melhor lidar com este clima.
Os 2 primeiros dias foram dedicados a todo o processo de preparação do evento. Desde o corte de gelo translúcido do lago, com uma espessura que rondava uns vinte centímetros, à compactação da neve - um processo idêntico ao usado na escultura em areia.
Em certas alturas, ao se cortar o gelo, ouve-se um som rude e cru - como o de um pequeno tremor de terra com uma duração inferior a segundo - do gelo sob os nossos pés mexer e se ajustar. Pergunto se é seguro. Riem-se mas asseguram-me que não há problema. Não me sinto completamente à vontade, mas sigo com o trabalho.

Não tenho nenhuma ideia prévia do que quero realizar, o tema é livre, desconheço o material e nunca tinha visto neve.
No local, de frente para bloco de neve que media dois metros e meio de altura, três e meio de largura e um metro de profundidade, nada me ocorre. Tiro as luvas e puxo de um cigarro - Penso em deixar de fumar, observo, viro costas, afasto-me, desisto de pensar no que havia de transformar aquela colossal massa branca. Olho à minha volta, a paisagem, o bloco, novamente a paisagem, os edifícios perdidos no meio daquele mar branco de onde emergem árvores nuas que os vestem, a arquitectura, o orgânico, o Homem, a Natureza. Estava então delineada a ideia: centrar-me  nesse paralelismo, o cunho que marca a nossa presença neste Mundo, esse legado. Jogo a mão ao bolso do casaco e tiro o bloco de notas, esboço e faço decisões: manter a forma do bloco, uma figura humana recortada de perfil no seio do bloco, não, uma figura humana estilizada como uma sombra - mais alguma coisa? -, faço vários esboços, uma figura humana estilizada como uma sombra e o reflexo desta.
Os 3 dias seguintes foram dedicados à execução da escultura.
Com enorme surpresa foi-me atribuído o 1º prémio, ex-equo com Jamie Wardley escultor inglês.


Estou para sempre agradecido a  Kimmo Frosti, de quem hoje sou amigo,  por me ter proporcionado esta experiência, tão enriquecedora. Bem como, a Jukka Lakela, Jamie Wardley, Natasha Chistyakova, Timo Koivisto, Simo Rossi e Jusso, pelos seus concelhos, apoio e excelente ambiente de trabalho.


Rodrigo Ferreira