Khabarovsk Rússia 2010
Concurso Internacional de escultura em gelo.
Sou convidado à ultima hora. Para conseguir chegar a tempo do concurso tenho que partir dentro de 6 dias. Faço buscas exaustivas de voos. Encontro um pelo preço do orçamento que me é oferecido para as viagens. Comunico com a organização. Não tenho resposta. 5 dias o fim-de-semana pelo meio, e 48horas o mínimo para tratar do visto, nada. Preciso um convite formal para fazer o visto. Entro em contacto telefónico com a organização, estão a tratar do convite. Entro em contacto com a embaixada sobre a possibilidade de conseguir o visto em 24 horas, Impossível. Entro em contacto directo com o Cônsul, explico a situação. -Talvez. Quer saber que tipo de convite se trata, em caso de convite para turismo, não tenho hipóteses. Recebo uma cópia por email na Segunda-Feira. Imediatamente falo com o consúl, não receberam o convite que devia ter seguido por fax. Telefono para khabarovsk, a voz era de quem já dormia, são 10 horas de diferença. Ficou de ligar para a Embaixada em Lisboa. Em uma hora faço as malas. Volto a falar com o Cônsul, posso fazer o visto no mesmo dia, tenho que que lhe reenviar por fax o convite:
- Por email, pode ser?
- Porque não por fax?
...
Finalmente, email. A minha internet vai abaixo. Não consigo conectar-me. Ainda não comprei as viagens. E o email...
Agarro em tudo e corro em busca de outro ponto de acesso. Encontro. Ligo. Envio o email. Volto a Falar com o Cônsul:
-Recebeu o email?
-Sim.
-Existe possibilidade de se fazer o visto no dia?
-Da... Sim.
As viagens não aumentaram de preço. Compro as viagens. Nessa noite, Segunda-Feira, parto para Lisboa.
Terça-feira. Vou tratar do visto. Consigo o visto em meia hora. Parto no dia seguinte.
No avião de Moscovo a Khabarovsk penso em ideias para a escultura, o tema é livre. Faço dois esboços e imediatamente decido por um deles. Em tom de diálogo duas figuras tentam chegar a um consenso a cerca da forma do seu Mundo, no entanto dada a proximidade com este, não conseguem chegar a um consenso. Tento chegar a um título, não tenho sucesso. Abandono esta tarefa.
Chegado a Khabarovsk, Cidade localizada, mais ou menos, no extremo sudeste da Rússia a uns trinta quilómetros da fronteira com a China, após desasseeis horas passadas em aviões e 14 horas de esperas.
Sou conduzido para o Hotel através da cidade. É sensivelmente uma hora da tarde. À medida que nos aproximamos do centro mais e mais esculturas em gelo aparecem em frente a cafés, tabacarias, hoteis, empresas, parques, etc. Pergunto-me: -O que vim aqui fazer? A cidade estava coberta de gelo em forma de esculturas por toda a parte.
Chegado ao Hotel largo as malas, tomo um banho, preparo-me para trabalhar. Almoço. O campeonato tinha começado essa manhã. Tenho 2 dias e meio para terminar a escultura num material que é a segunda vez que trabalho e estou a solo nessa tarefa.
No local esbarro com o meu bloco de gelo que como todos os outros mede 2,50 metors de altura, por 2.50 de largo e 0,60 de profundidade assente numa base de gelo com 45 cm de altura. Vou cumprimentar os colegas. Do grupo de escultores só conheço dois, a Natasha e o Karlis. Havia-mo-nos cruzado em eventos de escultura em areia.
Não tenho todas as ferramentas que preciso algumas destas são me fornecidas pela organização e outras vão-me sendo emprestadas pelos outros escultores. Alguns ajudam-me e dão me dicas técnicas.
Vou falando com as pessoas que passam e me questionam sobre o trabalho. Uma ou outra fala espanhol ou inglês mas a grande maioria só fala russo. Faço o que posso para as entender e ser entendido.
As reacções sobre o meu trabalho vão desde: "-Mas que o que é isto?!" até "-Que trabalho tão original!".
Um dos júris e organizador traduzido pela Natasha explica-me por que está contente com o meu trabalho. Era a primeira vez na história do concurso (9 anos) que alguém realizava uma escultura que não era ao estilo Realista. Sinto-me lisonjeado. Mais tarde, Natasha explica-me que no Este da Rússia apenas o realismo é apreciado de uma forma geral. Facto verificado nos outros trabalhos.
Consigo acabar a tempo, e, é nesta altura que chego a um título final para a escultura, "-Quadrado?".
No dia seguinte parto de regresso sem presenciar a cerimónia de inauguração e de entrega dos prémios. O preço dos voos, um dia mais tarde, ficariam pelo triplo.
Saio deste concurso muito satisfeito com todos os comentários e reacções que recebi ao meu trabalho.
Rodrigo Ferreira
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Finlândia 2009/2010
No final de 2009 em conversa com Kimmo Frosti, o organizador do Campeonato Internacional de Escultura em neve e gelo, ao largo do lago Saimaa na Finlândia, e após uma desistência por parte de um colega sou convidado a participar. Neste concurso participarão um total de 6 escultores.
Parti rumo à minha primeira experiência de escultura em neve e gelo, e de um inverno a sério.
Após uma longa viagem, chego ao aeroporto de destino Lappeenranta.
O evento situa-se a poucos quilómetros de Lappeenranta nas margens do gelado Lago Saimaa, o quarto maior da Europa, na área de um antigo hospital psiquiátrico - que está a ser remodelado numa estância turística - repartido em vários edifícios que se perdem numa paisagem de plátanos em tons de branco, cinzento, castanho e um suave azul que contrasta com o extenso manto branco que cobre o lago.
As temperaturas rondam uns constantes -20º e o ar é tão seco que o primeiro contacto limpa os pulmões. Não vim preparado para estas temperaturas. E antes de mais adquiro equipamento térmico para melhor lidar com este clima.
Os 2 primeiros dias foram dedicados a todo o processo de preparação do evento. Desde o corte de gelo translúcido do lago, com uma espessura que rondava uns vinte centímetros, à compactação da neve - um processo idêntico ao usado na escultura em areia.
Em certas alturas, ao se cortar o gelo, ouve-se um som rude e cru - como o de um pequeno tremor de terra com uma duração inferior a segundo - do gelo sob os nossos pés mexer e se ajustar. Pergunto se é seguro. Riem-se mas asseguram-me que não há problema. Não me sinto completamente à vontade, mas sigo com o trabalho.
Em certas alturas, ao se cortar o gelo, ouve-se um som rude e cru - como o de um pequeno tremor de terra com uma duração inferior a segundo - do gelo sob os nossos pés mexer e se ajustar. Pergunto se é seguro. Riem-se mas asseguram-me que não há problema. Não me sinto completamente à vontade, mas sigo com o trabalho.
Não tenho nenhuma ideia prévia do que quero realizar, o tema é livre, desconheço o material e nunca tinha visto neve.
No local, de frente para bloco de neve que media dois metros e meio de altura, três e meio de largura e um metro de profundidade, nada me ocorre. Tiro as luvas e puxo de um cigarro - Penso em deixar de fumar, observo, viro costas, afasto-me, desisto de pensar no que havia de transformar aquela colossal massa branca. Olho à minha volta, a paisagem, o bloco, novamente a paisagem, os edifícios perdidos no meio daquele mar branco de onde emergem árvores nuas que os vestem, a arquitectura, o orgânico, o Homem, a Natureza. Estava então delineada a ideia: centrar-me nesse paralelismo, o cunho que marca a nossa presença neste Mundo, esse legado. Jogo a mão ao bolso do casaco e tiro o bloco de notas, esboço e faço decisões: manter a forma do bloco, uma figura humana recortada de perfil no seio do bloco, não, uma figura humana estilizada como uma sombra - mais alguma coisa? -, faço vários esboços, uma figura humana estilizada como uma sombra e o reflexo desta.
Os 3 dias seguintes foram dedicados à execução da escultura.
Com enorme surpresa foi-me atribuído o 1º prémio, ex-equo com Jamie Wardley escultor inglês.
Estou para sempre agradecido a Kimmo Frosti, de quem hoje sou amigo, por me ter proporcionado esta experiência, tão enriquecedora. Bem como, a Jukka Lakela, Jamie Wardley, Natasha Chistyakova, Timo Koivisto, Simo Rossi e Jusso, pelos seus concelhos, apoio e excelente ambiente de trabalho.
Rodrigo Ferreira
Estou para sempre agradecido a Kimmo Frosti, de quem hoje sou amigo, por me ter proporcionado esta experiência, tão enriquecedora. Bem como, a Jukka Lakela, Jamie Wardley, Natasha Chistyakova, Timo Koivisto, Simo Rossi e Jusso, pelos seus concelhos, apoio e excelente ambiente de trabalho.
Rodrigo Ferreira
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
No dia 7 de Fevereiro rumei a Helsínquia para participar no Concurso Internacional de Escultura em Gelo "Art meets Ice", este ano subordinado ao tema "200 years ago".
Cometi um erro, que não me é hábito, na reserva dos bilhetes; verifiquei as datas de 2011 em vez de 2012 antes de efectuar a reserva. Chego no dia em que o concurso começa. Em conversas anteriores, a organização não se opõe a que inicie o trabalho ao dia 8 - dia destinado à folga dos escultores para que estes possam desfrutar da cidade e do que esta tem para oferecer - ficando condicionado à aceitação por parte dos colegas a concurso; estes não se opuseram.
Dia 8
Agarro no saco com as ferramentas que preparei na noite anterior e na moto-serra STIHL. Tomo o pequeno almoço. Dirijo-me para a paragem do eléctrico, um nevão abatia-se sobre a cidade, espero, questiono uma pessoa se o eléctrico está a funcionar. -O eléctrico não anda. Somos advertidos por uma senhora que passa. Caminho para o centro da cidade de onde devo apanhar um autocarro até ao Jardim Zoológico (Korkeassari) onde decorre o evento, neste período tento parar taxis sem sucesso - vão sempre ocupados. A cidade está um caos, um acidente por cada cruzamento. Após uma caminhada de 15 minutos chego à paragem de autocarros, vejo os horários, deve estar um prestes a partir. Passado algum tempo pergunto a um casal se o autocarro já teria partido, não me sabem informar. Desisto da espera que se prolonga e procuro uma paragem de taxis; encontro. À minha frente tenho uma fila de 20 pessoas. Olho constantemente o relógio. Vejo o tempo passar. Após 2 horas consigo chegar ao destino. Almoço.
No primeiro contacto com o bloco de gelo percebo que não poderia realizar o trabalho que tinha proposto e que me seleccionou para este evento. O gelo trazido da Lapónia não era da melhor qualidade. Metade do bloco consistia de uma camada de gelo sujo e acastanhado - situação explicada pela chegada tardia das temperaturas baixas. Tenho que improvisar. O bloco, em bruto, mede sensivelmente 200X90X60cm e pesa à volta de setecentos quilos. Começo por retirar o gelo sujo de forma a poder reutilizar. Fico com 200X90X30 cm de gelo limpo. Decido por um trabalho em relevo; não tenho volume suficiente para um trabalho tridimensional. Utilizarei uma técnica que, à muito, queria experimentar onde os pormenores são esculpidos em negativo. Divido o gelo longitudinalmente. Quatro horas depois tenho o bloco limpo e cortado. São quatro da tarde. Arrumo as ferramentas e corro a apanhar o último autocarro que parte dentro de dez minutos para o centro.
Dia 9
Já no local do concurso, destapo o bloco de gelo que deixei coberto. Três colegas ajudam-me a posicionar uma das metades do gelo que deve assentar perfeitamente ao lado da outra, desta forma passando a ter o dobro da área. A ideia será realizar uma pintura e moldura ao estilo do século XIX, apenas os temas abordados, em geral, nesse período eram outros. Aqui denuncia-se o abuso de poder e as consequências devastadoras da opressão; naquela época e até 1821 levadas a cabo pela Inquisição por intermédio da figura central da Monarquia em Portugal. No entanto este trabalho não se congela no passado nem se fixa no nosso País, ele aproveita-se do tema e projecta-o aos dias de Hoje.
Dia 10
Último dia para terminar o trabalho. Ainda muito por fazer. Sinto-me um pouco nervoso, não gostaria de deixar a escultura inacabada. Acelero sem desprimorar os detalhes. Termino o trabalho às três da tarde, uma hora antes do tempo determinado.
Não estou propriamente interessado num prémio. Para mim, oportunidades destas, servem para realizar o meu trabalho pessoal num material efémero que considero de enorme beleza, pelo qual tenho um grande interesse, e pouco comum em Portugal.
Duas horas depois é-me atribuído o segundo prémio por parte do jurí, e "Sculptor's choice" - obtendo a maioria dos votos dos restantes escultores a concurso. É uma grande Honra receber este último prémio por ser elegido de entre os pares.
Uma das coisas que mais valorizo neste tipo de evento é o enorme espírito de equipa, camaradagem e entre-ajuda entre escultores, in-clusívamente sem previamente nos conhecermos.
Assim, dou por terminada esta primeira entrada do blog. Este servirá para narrar as minhas participações nestes eventos, entre outros assuntos.
Rodrigo Ferreira
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