terça-feira, 14 de fevereiro de 2012


No dia 7 de Fevereiro rumei a Helsínquia para participar no Concurso Internacional de Escultura em Gelo "Art meets Ice", este ano subordinado ao tema "200 years ago".
Cometi um erro, que não me é hábito, na reserva dos bilhetes; verifiquei as datas de 2011 em vez de 2012 antes de efectuar a reserva. Chego no dia em que o concurso começa. Em conversas anteriores, a organização não se opõe a que inicie o trabalho ao dia 8 - dia destinado à folga dos escultores para que estes possam desfrutar da cidade e do que esta tem para oferecer - ficando condicionado à aceitação por parte dos colegas a concurso; estes não se opuseram.
Dia 8
Agarro no saco com as ferramentas que preparei na noite anterior e na moto-serra STIHL. Tomo o pequeno almoço. Dirijo-me para a paragem do eléctrico, um nevão abatia-se sobre a cidade, espero, questiono uma pessoa se o eléctrico está a funcionar. -O eléctrico não anda. Somos advertidos por uma senhora que passa. Caminho para o centro da cidade de onde devo apanhar um autocarro até ao Jardim Zoológico (Korkeassari) onde decorre o evento, neste período tento parar taxis sem sucesso - vão sempre ocupados. A cidade está um caos, um acidente por cada cruzamento. Após uma caminhada de 15 minutos chego à paragem de autocarros, vejo os horários, deve estar um prestes a partir. Passado algum tempo pergunto a um casal se o autocarro já teria partido, não me sabem informar. Desisto da espera que se prolonga e procuro uma paragem de taxis; encontro. À minha frente tenho uma fila de 20 pessoas. Olho constantemente o relógio. Vejo o tempo passar. Após 2 horas consigo chegar ao destino. Almoço.
No primeiro contacto com o bloco de gelo percebo que não poderia realizar o trabalho que tinha proposto e que me seleccionou para este evento. O gelo trazido da Lapónia não era da melhor qualidade. Metade do bloco consistia de uma camada de gelo sujo e acastanhado - situação explicada pela chegada tardia das temperaturas baixas. Tenho que improvisar. O bloco, em bruto, mede sensivelmente 200X90X60cm e pesa à volta de setecentos quilos. Começo por retirar o gelo sujo de forma a poder reutilizar. Fico com 200X90X30 cm de gelo limpo. Decido por um trabalho em relevo; não tenho volume suficiente para um trabalho tridimensional. Utilizarei uma técnica que, à muito, queria experimentar onde os pormenores são esculpidos em negativo. Divido o gelo longitudinalmente. Quatro horas depois tenho o bloco limpo e cortado. São quatro da tarde. Arrumo as ferramentas e corro a apanhar o último autocarro que parte dentro de dez minutos para o centro.
Dia 9
Já no local do concurso, destapo o bloco de gelo que deixei coberto. Três colegas ajudam-me a posicionar uma das metades do gelo que deve assentar perfeitamente ao lado da outra, desta forma passando a ter o dobro da área. A ideia será realizar uma pintura e moldura ao estilo do século XIX, apenas os temas abordados, em geral, nesse período eram outros. Aqui denuncia-se o abuso de poder e as consequências devastadoras da opressão; naquela época e até 1821 levadas a cabo pela Inquisição por intermédio da figura central da Monarquia em Portugal. No entanto este trabalho não se congela no passado nem se fixa no nosso País, ele aproveita-se do tema e projecta-o aos dias de Hoje.
Dia 10
Último dia para terminar o trabalho. Ainda muito por fazer. Sinto-me um pouco nervoso, não gostaria de deixar a escultura inacabada. Acelero sem desprimorar os detalhes. Termino o trabalho às três da tarde, uma hora antes do tempo determinado.
Não estou propriamente interessado num prémio. Para mim, oportunidades destas, servem para realizar o meu trabalho pessoal num material efémero que considero de enorme beleza, pelo qual tenho um grande interesse, e pouco comum em Portugal.
Duas horas depois é-me atribuído o segundo prémio por parte do jurí, e "Sculptor's choice" - obtendo a maioria dos votos dos restantes escultores a concurso. É uma grande Honra receber este último prémio por ser elegido de entre os pares.
Uma das coisas que mais valorizo neste tipo de evento é o enorme espírito de equipa, camaradagem e entre-ajuda entre escultores, in-clusívamente sem previamente nos conhecermos.
Assim, dou por terminada esta primeira entrada do blog. Este servirá para narrar as minhas participações nestes eventos, entre outros assuntos.

Rodrigo Ferreira